Correio Caros Amigos

24.06.2008


Eco-Socialismo

O último estágio do anticapitalismo

Está em discussão em sítios de várias organizações internacionais na internet, em texto ainda não definitivo, um projeto de Manifesto Eco-Socialista, segundo do gênero. Sua avaliação, obviamente, é de que só “uma mudança profunda na própria natureza da civilização pode salvar a humanidade das conseqüências catastróficas da mudança climática”.

“Às barbaridades do último século – cem anos de guerra, de pilhagem imperialista e de genocídio – o capitalismo acrescentou novos horrores:
é totalmente possível que o ar que respiramos e a água que bebemos fiquem permanentemente envenenados e que o aquecimento global torne inabitável grande parte do mundo."

Assim começa o esboço de manifesto, que continua em tom alarmista antes de expor sua proposta:
“Epidemias de malária, cólera e mesmo de doenças mais mortíferas vão devastar os membros mais pobres e mais vulneráveis de todas as sociedades. O impacto vai ser mais avassalador sobre aqueles cujas vidas já foram devastadas muitas vezes seguidas pelo imperialismo – os povos da Ásia, África e América Latina e povos indígenas em toda parte. A mudança climática foi, justificadamente, chamada de ato de agressão dos ricos contra os pobres. A destruição ecológica não é uma característica acidental do capitalismo: está embutida no DNA do sistema. A necessidade insaciável de aumentar os lucros não pode ser eliminada por reformas. Do
mesmo modo que uma pessoa não pode sobreviver sem respirar, o capitalismo não pode existir sem o crescimento contínuo. Sua única medida de crescimento é quanto é vendido a cada dia, a cada semana, a cada ano – incluindo vastas quantidades de produtos que são diretamente nocivos para os seres humanos e para a natureza, mercadorias que não podem ser produzidas sem espalhar doenças, destruir as florestas que produzem o oxigênio que respiramos, devastar os ecossistemas e tratar nossa água e ar como esgotos para a disposição de lixo industrial.”

Mais adiante, diz o texto:
“Não deve surpreender que o mesmo sistema que impõe a crise ecológica também estabeleça os termos do debate sobre a crise ecológica. Pois o capital comanda os meios de produção do conhecimento, tanto como a produção do carbono atmosférico. (…) Por isso, seus políticos, burocratas, economistas e professores apresentam uma infindável corrente de propostas, todas elas variações sobre o tema de que os danos ecológicos mundiais podem ser reparados sem perturbações no livre mercado e no sistema de acumulação que comanda a economia mundial. (…) E de fato, além de um verniz cosmético, essencialmente equivalente às plantas nos saguões das sedes das megaempresas, as reformas nos últimos 35 anos foram um fracasso monstruoso.

Melhoras individuais, é claro, chegam a ocorrer. Ainda assim são atropeladas e varridas pela expansão impiedosa do sistema e pelo caráter caótico de sua produção. Um fato que pode dar uma indicação do fracasso: nos quatro primeiros anos do século 21, as emissões globais de carbono foram quase três vezes maiores, por ano, do que as dos anos 1990, apesar do surgimento dos Protocolos de Quioto em 1997. Quioto emprega dois esquemas: o sistema‘capture e comercialize’ de comercializar créditos de poluição para alcançar certas reduções nas emissões, e o projeto do Sul Global – os chamados‘Mecanismos de Desenvolvimento Limpo’ (de sigla em inglês CDMs) – para contrabalançar emissões nas nações industriais. Todos esses instrumentos se baseiam em mecanismos de mercado, o que significa, antes de mais nada, que o carbono atmosférico se torna diretamente uma mercadoria, portanto sob o controle do mesmo interesse de classe que criou o aquecimento global
desde o início. Os capitalistas não estão sendo obrigados a reduzir suas emissões de carbono, mas, na verdade, estão sendo pagos para fazer isso e, desse modo, são autorizados a usar seu poder sobre o dinheiro para controlar o mercado de carbono para seus próprios fins, que, não é necessário dizer, incluem a exploração devastadora de ainda mais recursos em carbono.(…)

Quando acrescentamos a isso a impossibilidade literal de verificação ou de qualquer método uniforme de avaliação dos resultados, pode-se ver que não somente o regime é incapaz de controlar racionalmente as emissões, mas também proporciona um campo aberto para a evasão e a fraude de todos os tipos, juntamente com a exploração neocolonial da população indígena, bem como de seu hábitat. Como disse o jornal econômico americano Wall Street Journal em março de 2007, o comércio de emissões ‘iria fazer dinheiro para algumas corporações muito grandes, mas não acredite nem por um minuto que essa charada vá fazer muita coisa a respeito do aquecimento global’. O Journal chamou o crédito de carbono de ‘fazer dinheiro à moda antiga, driblando o processo regulatório’. E ainda assim esse sistema sem serventia é apresentado como o caminho certo.”

Objetivo: uma nova sociedade
Na parte propositiva, diz o projeto de manifesto que somente “uma mudança profunda na própria natureza da civilização pode salvar a humanidade das conseqüências catastróficas da mudança climática”. E o movimento eco-socialista pretende “deter e reverter esse processo desastroso”:
“Lutaremos para impor todo limite possível ao ecocídio capitalista, e para criar um movimento que possa substituir o capitalismo por uma sociedade em que a propriedade comum dos meios de produção substitua a propriedade capitalista e em que a preservação e a restauração dos ecossistemas sejam uma parte fundamental de toda atividade humana.” O eco-socialismo afirma que combina “uma crítica tanto da ‘ecologia pelo mercado’, que não desafia o capitalismo, como do ‘socialismo produtivista’, que ignora os limites naturais da Terra”. Seu objetivo é “uma nova sociedade, baseada na racionalidade ecológica, no controle democrático, na igualdade
social e na predominância do valor-de-uso sobre o valor-de-troca”.

O texto propõe substituir combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, responsáveis pelo efeito-estufa, por energia limpa de origem eólica e solar; reduzir drasticamente o transporte por carros e caminhões; e introduzir o transporte público gratuito e eficiente, mudar os atuais padrões de consumo, baseados no desperdício, obsolescência planejada e competição por ostentação.
Outros objetivos: eliminar a energia nuclear, a indústria de armamentos e a publicidade comercial.
A íntegra pode ser vista em
http://www.ecosocialistnetwork.org/Docs/Mfsto2/2nd-Ecosocialist-Manifesto-DRAFT-en.pdf.
Entre as organizações que discutem o manifesto estão as seguintes:

BlueGreenEarth.com
EuropeanSocialEcologyInstitute.org
SmallWorldMedia.ie
SocialEcologyInstitute.blogspot.com
MySpace.com/socialecologyinstituteEU
Anamnesis.net/Incineration.

Renato Pompeu é jornalista.

Esse artigo e muito mais você encontra no Especial Meio Ambiente da Caros Amigos. Já nas bancas!!

09.06.2008


Correio nº 1

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Caros amigos, boa noite. Escrevo este texto de madrugada, pois geralmente é quando consigo tempo para me dedicar a esta atividade de crítica da mídia. Escrevo e não reclamo, pois cada hora de sono roubada é muito bem recompensada quando percebo que cada vez mais brasileiros tomam conhecimento da brutal concentração que prevalece nos meios de comunicação. E percebem também o quanto essa concentração prejudica a democracia, já que os concentradores defendem a exploração do ser humano, a violência, a tortura, a guerra, a morte, a barbárie.

Ou alguém já viu no Jornal Nacional reportagem indignada com o salário mínimo de R$ 415,00, quando o mínimo para sobreviver com dignidade é R$ 1.947,51 (segundo o DIEESE)? Ou alguma série de reportagens condenando o genocídio promovido no Oriente Médio pelos Estados Unidos em nome da expropriação capitalista?

Mas o propósito deste comentário é outro. O fato é que em março deste ano alugamos uma salinha no centro do Rio, em parceria com a revista Consciência.Net. O endereço, para quem quiser nos visitar, é Rua do Ouvidor 50, 5º andar. É quase na esquina com a avenida Primeiro de Março. A conquista desse espaço é uma vitória para o Fazendo Media, que conseguiu alugar sua primeira sede após cinco anos de trabalho. Entretanto, corremos sério risco de perdê-la. Em nossa última reunião mensal, realizada em 16 de maio, chegamos à conclusão de que nosso "caixinha" seria suficiente apenas para o pagamento de mais dois meses de aluguel. A receita projetada com a venda de assinaturas não se confirmou e, como não temos anúncio (a não ser os do Google, que até hoje não conseguimos sacar devido à burocracia internacional), a triste solução será entregar as chaves.

Entretanto, como nossa página tem 2 mil visitantes únicos por dia e temos recebido ampla solidariedade de veículos amigos, como Caros Amigos, Carta Maior, Blogs do Mello, Pirata e Eduardo Guimarães, além da página do MST, antes de desistir da sala vou fazer um apelo a cada um de vocês que me lê: faça uma assinatura do Fazendo Media impresso ou uma doação de qualquer valor. Sua contribuição pode ser decisiva para a continuidade do nosso trabalho, cujo objetivo final é a democratização dos meios de comunicação no Brasil.

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Marcelo Salles é jornalista, correspondente de Caros Amigos no Rio de Janeiro e editor do jornal Fazendo Media. www.fazendomedia.com